sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Orientalismo

Edward Said, o mais famoso de todos os académicos palestinianos, simplesmente supera tudo o que li até hoje sobre o Médio Oriente. "Orientalismo", escrito há mais de três décadas, é a sua obra prima, e um dos mais influentes livros na sua área desde a sua publicação. O mais interessante é que o livro não é realmente sobre o Médio Oriente, mas sobre o campo de estudos criado pelos europeus - e mais tarde americanos - que estuda esta região. Conta-nos a história dos grandes escritores orientalistas, arabistas e outros, a forma como foram evoluindo de uma posição mais académica até ao mais puro policy making. Explora as suas limitações e, principalmente, o enorme erro de essencialismo que foi sendo multiplicado ao longo dos tempos, até os resultados do estudo do Oriente não terem qualquer semelhante com a realidade, embora fossem perfeitamente consistentes entre si.

O centro de todo o estudo é precisamente essa ideia de essencialismo: a capacidade de reduzir os orientais, em especial os árabes muçulmanos à sua religião. Como se mais nenhum factor fosse relevante. Como se o facto de se nascer num país super-exportador de petróleo com uma qualidade de vida imensa não fosse relevante para os definir. Ou, outros, viverem como refugiados do dia em que nasceram até à sua morte. Ou sob ocupação. Em liberdade ou numa ditadura. Como se o tempo não influenciasse a forma de pensar dos povos e dos indivíduos. Como se as experiências pessoais não colocassem tantos a desalinharem com a norma do seu povo.

Said está, na minha opinião, absolutamente correcto nesta sua crítica feroz ao essencialismo e ao Orientalismo moderno. E é um erro grave que, para além de apoiado e suportado por pensadores como Bernard Lewis, de quem aqui escrevi recentemente, chega às massas que tão facilmente reduzem cada um dos árabes a essa imagem geral do que é suposto ser um árabe. Um imagem imutável, essencialista e que recusa qualquer individualismo.

Neste mesmo bloque, vejo comentários assustadores de gente que deseja a morte de todos os Muçulmanos, ou noutros casos a defenderem novos Holocaustos sobre os Judeus. Como é possível que alguém defenda crimes dessa dimensão se não se convencer que os "outros" são todos iguais e todos criminosos? Que os bebés de colo estão destinados a serem terroristas ou opressores e que cada adulto está à espera do momento certo para nos atraiçoar?

A partilha de alguma ideias neste blogue durante os últimos anos ensinou-me pouco sobre História, mas bastante sobre o ódio que tantas pessoas sentem por seres que nunca viram e conheçem apenas dos filmes e noticiários. E isso é verdadeiro quer para islamofóbicos quer para anti-semitas. No seu ódio, mostram-se rigorosamente iguais.

A única crítica que faço refere-se à forma violenta como Edward Said vê, por exemplo, o uso de cientistas, historiadores, arqueólogos e burocratas que acompanharam o exército de Napoleão durante a sua invasão do Egipto em 1798. Os objectivos do imperialismo podiam estar totalmente errados, mas o uso da ciência enquanto suporte deste não é, a meu ver, particularmente estranho ou negativo. Quando comparamos com a conquista das américas pelos Espanhois e Portugueses, vemos que estes últimos não tinham o mais pequeno interesse em compreender os povos que lá viviam, as suas religiões, a sua ciência ou a sua história. Embora ainda de uma posição de superioridade - compreensiva já que ele era de facto o conquistador - olho para a atitude de Napoleão como uma demonstração de humildade perante a civilização que encontrava. Mas quanto mais nos aproximamos dos dias de hoje, mais verdadeira é a crítica de Said e mais incompreensível a forma limitada com que o mundo vê outros povos, hoje tão próximos e tão cheios de testemunhos.

Por tudo isso, ler Said é algo que aconselho vivamente a quem já tenha dedicado algum tempo a tentar compreender e pensar o Médio Oriente, mas muito mais para quem acredita já ter todas as respostas e para quem acha que "já escolheu um lado". 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Não, não sou anti-semita!

Às vezes cansa. Cada vez que faço qualquer crítica à actuação do governo de Israel, chovem as acusações de anti-semitismo. Por isso vou tentar ver se consigo deixar a minha posição clara:

- Não desejo mal a ninguém por ser Judeu, Muçulmano, Cristão, Budista, Agnóstico, Ateu ou qualquer outra religião ou falta dela.

- Na realidade não desejo mal a ninguém. Talvez seja uma posição ingénua, mas não tiro prazer do mal que acontece aos outros.

- Nenhum grupo étnico ou religioso se sobrepõe ao indivíduo. Isto significa que nenhum Judeu é individualmente culpado pelo que outra pessoa da sua etnia ou religião fez ou faz. O mesmo é válido para todos os outros credos.

- O Holocausto Nazi existiu e os Judeus as suas principais vítimas. Não foi o único genocídio da história e nem sequer do último século, mas foi o pior de todos eles.

- O anti-semitismo é um crime grave. Tão grave como o racismo, a xenofobia ou a islamofobia.

- Não apoio terrorismo de espécie nenhuma, por nenhum grupo e contra nenhum grupo. Seja ele a Al Qaeda, o Stern Gang, a ETA, o Boko Haram, Al Shabab, FP-25, Baader Meinhof ou Exército Vermelho Japonês.

- Criticar o governo de Israel não significa fazer dos seus vizinhos santos. Já públiquei inúmeros artigos sobre isso, sobre a Primavera Árabe, sobre o Egipto, Líbano, Síria e muitos outros.

- Criticar o governo de Israel não significa fazer dos palestinianos santos. Também já escrevi muitas vezes sobre os crimes de Yasser Arafat, do Hamas, sobre os bombistas suicidas entre outros.

- São muitos os Judeus de todo o mundo e até em Israel que criticam também a actuação deste e outros governos de Israel. Incluem sobreviventes do Holocausto, antigos militares, ONGs e até lóbis oficiais.

A única curiosidade é mesmo a forma como a acusação de anti-semitismo é utilizada constantemente como arma para silenciar qualquer oposição à actuação de Israel. O problema é que provavelmente.... "you might just have overplayed your hand".

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Impunidade Total

Ziad Abu Ein
Se houve algo que aprendi nos anos que passei na Palestina e a lidar com o exército de ocupação de Israel (orweliamente entitulado de Israel Defense Force) é a da inequívoca certeza da total impunidade das forças militares, policiais e serviços secretos que lá operam. Seja no homicídio de crianças e bebés em Gaza, na invasão de casas para verem os jogos da Liga dos Campeões (como relata a ONG israelita Breaking the Silence), na prisão e violência sobre elementos de ONGs de todo o mundo até, agora, à morte de um ministro do governo da Palestina, Ziad Abu Ein. 

Desarmado, foi vítima da violência dos soldados israelitas que lhe agarraram no pescoço e bateram com um capacete durante uma demonstração pacífica. Em breve aparecerão certamente relatos de que ele morreu sozinho com um relâmpago, vítima de um ataque do Hamas ou que um ataque de coração. A irrepreensível formação do IDF e a existência de meio milhão de colonos judeus ilegais em território palestiniano também não serão postas em causa. As ajudas americanas também não vão parar. certamente não será colocada em causa. Ao soldado, certamente não acontecerá nada. Depois de uma longuíssima e cuidadosa investigação, o assunto será votado ao esquecimento, como acontece a todos os outros.

Mas, sabendo que tudo isto aconteceu na Cisjordânia e não em Tel Aviv ou Haifa, a pergunta é muito simples: o que estavam lá a fazer os soldados israelitas?

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O Natal em que os canhões pararam

Na noite de natal, em 1914, grupos de soldados ingleses, franceses e alemães juntaram-se nas trincheiras e beberam, cantaram e jogaram futebol juntos. Por umas horas, um inesperado (e não autorizado) cessar-fogo juntou aqueles que durante 4 anos se dedicaram a matarem-se mutuamente aos milhões.

Um segredo de estado em França e na Alemanha, noticiado no Reino Unido e considerado como traição por todos os líderes, este Natal de 1914 representou uma pequena esperança para os que advogavam um levantamento das classes proletárias contra o imperialismo de ambos os lados.

Infelizmente, o Natal não é todos os dias e em breve a matança de milhões continuou, com métodos cada vez mais mortíferos e terríveis, com armas químicas, tanques, submarinos e aviação a juntarem-se numa combinação nunca vista.

Para a história fica esta imagem, em breve centenária.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Burkas, Abayas e a Mulher Árabe

Se o motivo para as mulheres muçulmanas usarem burkas ou abayas era o de impedirem os seus instintos de vaidade, provavelmente não estará a resultar muito bem. Ao contrário do que imaginava quando cheguei pela primeira vez ao Médio Oriente, o tradicional vestido negro que cobre as árabes locais da cabeça aos pés - e em alguns casos até a totalidade da cara - mostra uma realidade muito mais complexa a uma variedade muito maior.

O uso de roupas que cobrem o corpo todo é, em muitos casos, anterior ao Islão (como é o caso da burka afegã), no entanto acabaram por ficar associados a esta religião por apropriação cultural no momento da sua criação. Sem querer entrar em excessivos detalhes sobre a história e desenvolvimento da religião muçulmana e da cultura árabe, gostava só de apontar um pormenor relevante que distingue o Islão dos dois outros grandes monoteísmos (Judaísmo e Cristianismo): o facto de o seu líder religioso ter-se tornado em vida também como líder político e militar e ter participado na criação do seu império. Isto fez com que o Islão tivesse muito cedo, ainda durante a vida do profeta Mohammed, que definir muitas regras práticas de governação, de justiça, policiamento, estratégia militar e até leis de família. 

É, no meu entender, essa praticalidade que podemos encontrar em muitas das regras que distinguem o Islão de, por exemplo, o Cristianismo[1]. Pode-nos parecer estranho a aversão que esta religião mostra ao álcool, ao jogo ou à carne de porco, mas basta imaginarmos uma época de caos e escravidão, onde as pessoas arruinavam as suas famílias e acabam como escravas pelas suas dependências (será que mudamos assim tanto?) para compreendermos que estas proibições, embora puritanas, são em grande medida também regras de auto-defesa de uma sociedade. A proibição do consumo de carne de porco, inegavelmente associado a inúmeras doenças da altura e sendo um animal profundamente sujo, também não é estranha. Noutros casos, essa necessidade prática pode ter tido benefícios inimagináveis, como por exemplo na obrigação de lavagem (hoje considerada ritual) antes de rezar. Será que não se teria evitado ou limitado a Peste Negra, se calhasse de estar escrito na Bíblia que um banho uma vez por semana agradava a Deus?

O que me leva novamente à questão do uniforme árabe. A lei islâmica não é totalmente clara em relação à roupa, mas defende que as mulheres devem vestir de forma modesta  para que não atraiam uma indevida atenção dos homens. Ou seja, procura-se evitar a atração do sexo oposto e condena-se a vaidade de o tentar fazer. 


Princesa Haya da Jordânia com o seu marido Sheikh Mohamed Al Maktoum,
Primeiro-Ministro dos EAU e Sheikh do Dubai

No entanto, se as mulheres da península arábica tentam seguir a letra da lei, parece-me claro que a cada dia que passa estão mais longe do espírito da lei. Quando fui viver para o Dubai, há quase uma década atrás, as abayas eram quase todas iguais: pretas da cabeça aos pés, e muito raramente com um fio dourado ou diamantes bordados nas mangas ou no hijab (o lenço que cobre a cabeça). Com o tempo, foram-se tornando mais visíveis, com fios pendurados nos ombros, pequenos recortes em azul escuro, dourado ou castanho e com cortes mais à medida. Grandes nomes da moda, como Yves Saint Laurent investem cada vez mais neste mercado e algumas abayas têm agora a marca bem visível. Nos desfiles de moda, como aconteceu na recente inauguração do Yas Mall, em Abu Dhabi, onde os vestidos ocidentais e locais foram mostrados em conjunto na mesma colecção. Não é de descurar também a influência de algumas personalidades, como a Princesa Haya, segunda esposa do Sheikh Mohammed do Dubai, que - tal como o marido - utiliza por vezes roupas tradicionais ou modernas, quer do Médio Oriente como do Ocidente.

Com as mulheres dos Emirados a tomarem conta das universidades e, cada vez mais, a ganharem espaço na vida pública e profissional do país, podemos estar a assistir a uma mudança cultural muito relevante neste país, a da emancipação real das mulheres, onde a roupa é apenas uma pequena parte de tudo o que poderá estar para vir.




[1] Como declaração de interesses, devo informar os leitores que me considero agnóstico, tendo sido educado no cristianismo de Roma.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

O que correu mal?

Escrito por aquele que será o mais famoso historiador orientalista do pós-segunda guerra, Bernard Lewis, "What went wrong?" é um livro curto que retrata a lenta decadência do mundo árabe desde o início do seu confronto com a modernidade ocidental, geralmente considerada como a invasão do Egipto por Napoleão Bonaparte. 

Este historiador britânico/americano ainda vivo e do topo dos seus 98 anos é famoso pelas suas visões do Médio Oriente e o conhecimento do Império Otomano, um dos mais interessantes temas da região, no que toca aos últimos 500 anos.

A sua visão é relativamente clara: o mundo islâmico, tendo estado nos primeiros séculos depois da vinda do profeta Mohamed em ascensão constante, vem perdendo força e importância a todos os níveis. Com o fim da idade média, as melhorias técnicas e científicas, a capacidade militar e a organização social do ocidente vão ganhando terreno e quando finalmente confrontadas em larga escala, mostraram estar muito acima das capacidades do que o mundo do Islão conseguia agregar.

Infelizmente, embora repleto de pequenas histórias interessantíssimas e factos e testemunhos que guardarei com cuidado, o livro "What went wrong?" tem profundas falhas. Talvez a mais grave é o tratamento da parte pelo todo e do todo pela parte, o que acontece constantemente ao longo do livro e de forma a que os dados contribuam sempre para a pré-definida conclusão. Por exemplo, a primeira metade do livro é praticamente toda dedicada ao Império Otomano, sendo este comparado sucessivamente com os Impérios Britânicos, Franceses e Russos. No entanto, em múltiplos casos, Lewis salta subitamente desse mundo pré-primeira guerra mundial para comparações do mundo islâmico com os Estados Unidos da América pós-segunda guerra mundial. Ou seja, numa altura em que quer o Império Britânico quer o Império Francês já tinham desaparecido e estes países - tal como a nova Turquia republicana - reduzidos a estados de média dimensão com projecção diplomática e cultural mas sem peso nas grandes decisões do mundo.

Por outro lado, Bernard Lewis reduz o mundo islâmico à pequenas partes deste. Para além do Império Otomano existiam e existem centenas de milhões de muçulmanos espalhados por outros estados, muitos deles em maioria. Considera, para além disso, o Islão como única e fundamental variável para explicar o diferente avanço de cada um dos povos, o que me parece profundamente redutor e que contraria profundamente o que vemos no nosso dia-a-dia no Médio Oriente.

Para convencer o seu público da inabilidade do mundo islâmico, diz-nos que um pequeno país como a Finlândia tem mais exportações do que o mundo árabe tirando o petróleo e derivados. Abstem-se de dizer no entanto que essa Finlândia (o livro foi publicado em 2002) era a sede da Nokia, na altura uma das maiores e mais bem sucedidas empresas do mundo[1]. Em 2000 já representava sozinha 70% do seu mercado de capitais e 21% das exportações do país. Continuou a crescer até chegar aos 41% do mercado mundial de telemóveis. Ao retirar o petróleo da equação, retirou das contas aquele que é o verdadeiro motivo do boom do Médio Oriente, para além de discretamente saltar do mundo islâmico para o mundo árabe, o que retira imediatamente algumas das maiores economias do mundo islâmico, como a Turquia e a Indonésia, ambas economias muito mais diversificadas do que os estados construídos nos inóspitos desertos da península arábica ou no extremo norte do deserto do Sahara.

Bernard Lewis também parece prender-se excessivamente na ideia de que as vitórias militares são suficientes para provar o nível civilizacional de um povo, uma ideia que contesto. Basta olhar para as vitórias dos Mujahedeen sobre os soviéticos, dos Vietcong sobre os Americanos ou da Alemanha Nazi sobre a República Francesa para perceber que existe muito mais para além de guerra, quando queremos definir o nível civilizacional de um povo. Se o Império Otomano, que ele tão bem conhece não estava à altura dos exércitos europeus, por outro lado tinha uma capacidade de integração de minorias étnicas que - a meu ver - deveria ser ainda hoje um caso de estudo cuidado. Basta ver que aos séculos de relativa paz nas mãos dos Otomanos seguiram-se décadas de conflitos constantes aos quais nem as novas superpotências souberam resolver. A situação aliás, só parece piorar com cada nova tentativa de intervenção ocidental.

Outro factor que Lewis não tem em conta refere-se precisamente à influência e intervenção directa do resto do mundo. É extremamente interessante que alguém consiga olhar para o Médio Oriente e não perceber o quanto as potências estrangeiras conseguiram destruir, pilhar e influenciar. Não que todos os problemas sejam exógenos, longe disso. Mas não é possível deixá-los de fora. Curiosamente, Bernard Lewis era um conselheiro da administração Bush, cuja intervenção no Médio Oriente - em especial no Iraque em 2003 - é ainda hoje um dos grandes motivos de ressentimento dos árabes em relação aos Estados Unidos, ao mesmo nível do apoio a Israel e dos golpes patrocinados pela CIA (como o de Mosadegh, no Irão em 1953).

O grande defeito do livro é começar pelo fim, ou seja, por ter uma conclusão definida à qual os dados teriam que encaixar. "O que correu mal?" já pressupõe que tudo correu mal, colocando no mesmo saco estados falhados como o Afeganistão, o Iraque ou a Líbia com alguns dos países mais ricos e seguros do mundo, como os Emirados Árabes Unidos, o Qatar ou o Kuwait. Para além disso, esse mesmo título podia ser utilizado para falar da ascensão e queda de todos os impérios, como o Britânico, o Françês, o Português ou o Japonês.

O mundo islâmico tem de facto um desafio enorme para adaptar muitos dos hábitos ocidentais sem colocar em causa as suas raizes religiosas e culturais. A velha discussão sobre modernidade vs ocidentalidade. É algo porque todos os povos são confrontados diariamente. Diferentes partes desse mundo islâmico trataram o assunto de forma diferente com soluções que passaram desde o secularismo total da Turquia, à semi-democracia teocrática do Irão, à teocracia monárquica da Arábia Saudita, dependendo das suas próprias experiências, dos seus recursos e das suas alianças com os grandes poderes dos mundo.

Posso não concordar com muitas das interpretações do livro, mas isso não altera o prazer que tive a lê-lo e o muito que aprendi sobre o passado e presente desta região.



sexta-feira, 17 de outubro de 2014

A Guerra do Mundo

Escrito por um dos meus historiadores favoritos, "A Guerra do Mundo" é um livro sobre a história do ódio no século XX e sobre as vítimas que este causou, passando pelos pogroms, as guerras mundiais, os genocídios judaico, arménio, tutsi, entre outros. A lista de vilões é enorme e os seus actos dignos de alguns dos piores carniceiros de toda a história. Mas "A Guerra do Mundo", numa assumida associação ao livro de ficção de H.G.Wells, acaba por ter um problema grave de âmbito. Ao juntar eventos extremamente complexos como a segunda guerra mundial, a guerra fria, a guerra civil de Angola ou a guerra Russo-Japonesa de 1905, Ferguson acaba por não conseguir dar o detalhe necessário e as explicações necessárias para cada um dos temas.

Mas, não obstante as suas falhas, a "Guerra do Mundo" é um belíssimo livro que consegue captar o ocaso dos Impérios Europeus (Austro-Húngaro, Otomano, Russo, França e Reino Unido) as décadas de ascenção das novas super-potências (Estados Unidos da América e União Soviética) e o movimento de desafio do que poderiam ter sido os novos impérios do mundo (Alemanha, Itália e Japão). No fundo, o séc.XX acaba por ser analisado do ponto de vista da segunda guerra mundial, com 40 anos de precedentes (como o tratado de versailles, a ascenção das novas potências ou a grande depressao) e outros 40 de resultados (como as super-potências, as guerras de independência em África e na Ásia, o conselho de segurança das Nações Unidas ou as guerras do Afeganistão e Angola).

Niall Ferguson é também um verdadeiro comunicador, perfeito nos seus programas de televisão e brilhante na sua escrita. Os seus livros são fáceis de ler e agarram o leitor da primeira à última página. Mas devo dizer que os seus momentos mais espectaculares estão na defesa de realidades históricas alternativas, como no seu "Virtual History: Alternatives and Counterfactuals" de 2000, Esse será provavelmente o seu lado mais único, quando utiliza uma análise histórica para provar que muitas decisões e desfechos poderiam, com uma probabilidade razoável, ter sido bastante diferentes.

Conseguimos ver algum deste brilho em "A Guerra do Mundo", mas o livro peca por um final cada vez mais acelerado, onde os grandes eventos do fim do século, como a ascenção do radicalismo islâmico e os conflitos do Médio Oriente (que de facto tomaram o palco central da política e diplomacia internacional) a serem tratados de forma muito superficial.

Resumindo, um livro interessante e bem escrito que não exige conhecimento prévio especializado sobre os temas tratados e claramente direccionado ao grande público. Aconselho a sua leitura sem quaisquer reservas.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Atacar para...?

O mesmo mundo que ignorou as centenas de milhares de mortos na Síria, na Ucrânia ou no Iraque prepara-se agora para corajosamente bombardear até à Idade da Pedra, essa enorme ameaça global que é o Estado Islâmico. Isto claro, sem colocar "botas no chão" não vá acontecer alguma desgraça. Para isto, uma coligação semi-formal de mais 50 países juntou-se a um grupo de outros ex/futuros inimigos que também lutam contra o EI, tais como a Síria de Bashar Al Assad (que ainda anteontem ia ser bombardeada pelos EUA e a França) ou o Irão dos Mullahs (que na semana passada era a maior ameaça à segurança mundial).

Não tenho dúvidas quanto ao nível medieval, fundamentalista e violento desse grupo terrorista e já aqui tive oportunidade de escrever bastante sobre o assunto, mas pergunto-me se esta intervenção trará algo de bom. Até compreendo a noção de que algo tem que ser feito, mas não vejo de que maneira o bombardeamento (que certamente arruinará a economia desse proto-estado e as suas capacidades militares convencionais) poderá levar a algo que não seja o entricheiramento dentro das enormes cidades que ocupam. Alguém acredita ser possível bombardeá-los para fora de uma cidade como Mosul, com quase dois milhões de habitantes sem colocar tropas no terreno ou causar enormes baixas civis "colaterais"?

Por outro lado, já vimos isto antes: as potências mundiais gastam milhares de milhões de dólares a destruir um país e depois não mostram grande capacidade de o reconstruir ou ajudar no processo de democratização de que tanto falaram inicialmente.

O mais curioso é que não existe melhor exemplo histórico de um conquistador conseguir tornar o conquistado em aliado do que os EUA no final da segunda guerra mundial, quando a Alemanha, Japão e Itália (entre outros), graças a uma ocupação benigna, processos judiciais relativamente limpos (como o Tribunal de Nuremberga) e um investimento massivo por parte do vencedor (o Plano Marshall), colocaram as três potências do Eixo entre os seus melhores amigos no pós-guerra. Ainda mais relevante será o facto de, muito rapidamente, se terem tornado em três super-economias altamente desenvolvidas, tecnologicamente avançadas e pacifistas, algo que nem Iraque, nem Afeganistão, nem Líbia se podem orgulhar.

Infelizmente, tudo indica que esta operação não passará do habitual das últimas décadas. As bombas vão cair e quanto mais tentarem erradicar os fundamentalistas mais vítimas civis provocarão. O Estado Islâmico vai cair enquanto entidade e provavelmente o seu líder será morto. Mas no seu lugar milhares de outros se levantarão dos escombros de um país arruinado e que se auto-convencerãi da perfídia dos americanos e da necessidade de se aproximarem do que acreditam ser o caminho do Profeta, do comunismo mais radical ou qualquer outra forma violenta alternativa.

Talvez existisse uma hipótese de se evitar este inesgotável ciclo de violência se fosse colocado tanto esforço na reconstrução e verdadeira democratização do país como certamente vai ser colocado no seu arrazamento.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Quem apoia o Hamas?

Se formos a acreditar nos que consistentemente apoiam toda e qualquer acção violenta do governo de Israel, toda a gente que mostre a mais pequena dúvida em relação à violência de Israel parece ser um apoiante fanático do Hamas. Afinal de contas, só mesmo um militante fundamentalista islâmico é que alguma vez se poderia emocionar com o sofrimento das crianças de Gaza. Alguém mais "humanista", como um comentador de um dos meus recentes artigos diz que "não choro nem um pouco a morte de um terrorista, mesmo que ele tenha 5 anos de idade". 

O nível de desumanidade que tenho encontrado nas caixas de comentários deste blogue tem-me ajudado a abrir os olhos em relação a um fenómeno estranhíssimo: o nível de violência que a generalidade das pessoas apoiam. Quer os que defendem Israel quer os que defendem a Palestina. É comum ver gente a desejar a morte de todos os Judeus, tanto como ver outros a clamarem pela homicídio de todos os Muçulmanos. Nunca quis acreditar que de um lado e doutro as principais motivações sejam algum tipo de instintos primários de anti-semitismo e islamofobia, mas talvez tenha que rever isso um destes dias.

Já aqui escrevi várias vezes sobre o Hamas, mas como alguns leitores insistem em acusar-me de apoiar o Hamas, aqui vai o que eu penso deles: O Hamas é uma organização terrorista. A sua legitimidade democrática (uma vez que ganharam as últimas eleições livres da Palestina) não altera o facto de utilizar tácticas terroristas, ou seja, é um grupo terrorista que não soube dar o salto para ser um partido político de pleno direito, como aconteceu a muitos outros movimentos terroristas espalhados pelo mundo. A execução sumária de várias pessoas acusadas de espiarem para Israel nos últimos meses, sem qualquer julgamento ou oportunidade de provar a sua inocência mostra o total desrespeito pelos mais básicos conceitos de justiça. Também não tenho dúvidas de que a ascensão do Hamas é o resultado directo da incompetência e corrupção da Fatah, o partido de Yasser Arafat, assim como da política de violência indiscriminada de Israel que resultou na primeira intifada.


Shimon Peres e Mahmoud Abbas
O Hamas cresce por cada nova guerra com Israel. Para o mundo árabe, a sua legitimidade enquanto único poder em todo o mundo islâmico que ainda luta contra Israel torna-o especial aos olhos da população árabe e muçulmana. Noutras ocasiões, foi o Hizbullah que conseguiu esse tipo de unanimidade, mas logo a seguir a 2006, quando teve o seu pico de popularidade, a sua energia vem-se perdendo e vê-se agora envolvido na guerra civil Síria do lado do exército de Bashar Al Assad, ou seja, a lutar contra os muçulmanos Sunitas quer moderados quer fundamentalistas. 

Pelo contrário, a Fatah e o seu líder Mahmoud Abbas, vão perdendo apoio enquanto mantém a difícil tarefa de controlar a sua população nestas alturas difíceis em que os palestinianos vêm o seu povo a ser bombardeado em Gaza. São obviamente vistos como colaboracionistas e como fracos, e quando a sua política de apaziguamento é traída pelo anúncio de novos colonatos israelitas na Cisjordânia, onde meio milhão de judeus já se encontram em colonatos ilegais, a sua legitimidade cai por terra.

Se o Hamas beneficia politicamente de cada nova guerra, que é que dá ao Hamas essa oportunidade a cada par de anos senão Israel? Talvez pudesse ser apenas por estupidez e incompetência. Afinal de contas, logo nos primeiros dias de guerra já dava para saber que o Hamas sairia politicamente vitorioso e que o governo de Israel sairia derrotado

Agora lemos os jornais israelitas a atirarem em cima de Benjamin Netanyahu[1], que já teve que despedir um dos seus ministros[2], enquanto do outro lado do muro as sondagens dão agora vitória ao Hamas numa eventual eleição palestiniana[3] algo que não surpreenderá quem viu a festa espontânea feita em Gaza assim que o cessar-fogo foi anunciado.

Se eu, que não tenho qualquer experiência política consegui facilmente e sem quaisquer dúvidas prever este desfecho como é que Netanyahu e o seu governo não o conseguiram? Provavelmente não será estupidez ou incompetência, apenas algum aventureirismo e uma continuação da famosa política de "corte de relva", ou seja, Israel não pretende resolver problema nenhum, apenas manter o status quo, impedir a criação do estado palestiniano, manter o Hamas politicamente forte e militarmente fraco e a Fatah comprometida e desacreditada enquanto lhe vai roubando território, um colonato de cada vez.

Quem apoia o Hamas? Eu não sou de certeza. Israel, a avaliar pelos seus actos, talvez...  

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Contra o boicote a Israel

Victoria's Secrets é uma das empresas alvo da campanha
de BDS (Boycott, divestment and sactions)
Sou extremamente crítico da governação de Israel e a forma como lida com a questão palestiniana. O cerco a Gaza, a ocupação da Cisjordânia e o estado de apartheid que o os israelitas não judeus vivem em Israel são crimes contra a humanidade que deviam envergonhar todos os israelitas. Isso não faz dos seus inimigos uns santos nem dos seus vizinhos meras vítimas, mas cada um é culpado dos seus próprios pecados, e a conta de Israel não é pequena.

Dada a minha opinião sobre Israel e uma vez que vou publicando diferentes aspectos e detalhes desta nest blogue, recebo regularmente petições e emails para dar o meu apoio a um boicote económico a Israel. Isto significa penalizar as marcas que têm fábricas em Israel ou que têm lá as suas origens. Nos habituais alvos a abater estão a Victoria's Secrets, a Hewlett Packard[1], Motorola[2].


Tirando o fim das ajudas militares, sou absolutamente contra o isolamento comercial de Israel. Tenho a certeza que isso só tornaria o problema muito pior. Sou aliás, regra geral, contra esse tipo de sanções económicas.

Olhemos para outros países que sofreram embargos nas últimas décadas e veremos que todos sofreram imensamente, mas nenhum se tornou militarmente mais fraco, menos violento com a sua população ou mais cumpridor dos direitos humanos. Regra geral, uniram-se à volta dos seus líderes e aumentaram os seus níveis de ódio pelos estrangeiros que tantos danos causaram ao país. Os civis desses países sofrem, mas as suas elites e regimes não. Um tipo de pena colectiva que causa danos em todos menos naqueles que seriam eventualmente os alvos legítimos.
Cuba... hoje!

Em Cuba, meio século de embargo americano não ajudou o regime a cair. O país é pobre, mas aprendeu a não depender do exterior, em especial depois da queda da União Soviética. Julgou-se que nessa altura não haveria futuro para Cuba, mas 25 anos depois o regime não caiu.

Na Coreia do Norte - o mais opressivo de todos os regimes à face da terra - um isolamento quase total a qualquer influência exterior tornou o país paupérrimo mas com um exército monstruoso e aparentemente bem treinado e fanático. A sua tecnologia nuclear e de mísseis é real e um perigo para a humanidade. Em tudo o resto, é pior do que a maioria dos países do terceiro mundo. Mais uma vez, um povo em sofrimento com uma elite e um poder militar capazes de causar terror na região.


Teerão (Irão)
No Irão, 35 anos de sanções e isolamento tornaram uma economia totalmente dependente do petróleo numa economia altamente diversificada. Mesmo quando invadidos pelo Iraque de Saddam Hussein numa das mais violentas guerras que o Médio Oriente já vira e onde o Iraque era apoiado pelas Monarquias do Golfo e pelo Ocidente, o regime não tremeu.

No Iraque, entre 1990 e 2003, o embargo comercial (que incluia produtos médicos e farmaceuticos) foi de tal forma violento que a UNICEF estima que meio milhão de crianças com menos de 5 anos terão morrido à conta deste. O regime, mesmo depois de perder duas guerras e de um quase total isolamento não caiu até à invasão americana de 2003.

Em todos os casos, a população sofreu, mas por si só as sanções económicas e o isolamento não alteraram o rumo político. Pelo menos para melhor. Se hoje em dia quer Israel quer a Palestina estão verdadeiramente preocupados com o que pensa a opinião pública mundial é precisamente porque ambos estão bastante dependentes dela. O isolamento só beneficiará os fanáticos de ambos os lados.

Estou aliás convencido que este problema israelo-palestiniano só se resolve quando tivermos uma combinação de dois factores: (1) absoluta dependência económica de ambos aos EUA e (2) um Presidente americano que os force a chegarem a um compromisso debaixo da ameaça directa de retenção dos fundos. Nessa altura, cada vez que um F-16 israelita atacar Gaza, os fundos ficam retidos mais um mês ou dois. Cada vez que o Hamas lançar um rocket, o dinheiro essencial para pagar os seus funcionários públicos não chega a tempo. Claro que não será fácil para um Presidente conseguir isso e manter a coragem para a fazer cumprir, mas não vejo outra solução.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A importância do conflito Israelo-Palestiniano

Porque é a questão Israelo-Palestiniana tão importante? O que faz com que pessoas de todo o mundo discutam com tanto pormenor, tantos detalhes históricos, tantas emoções, amor e ódio um assunto que - em muitos sentidos - não é diferente de tantos outros que assolam o mundo? Porque motivo não discutimos todos o problema da Coreia do Norte, a Chechénia ou a Transnístria? Qual a razão para um genocídio no Rwanda, onde centenas de milhares de pessoas morreram de forma selvagem, ter acontecido sem que o mundo mostrasse qualquer preocupação?

Estas não são perguntas retóricas e desafio aqui os meus leitores a darem as suas próprias respostas. 

Não queria focar-me demasiado nos méritos de cada um dos campos, mas na questão da importância que é dada ao conflito. Foi-me dito por um diplomata em Jerusalém que, a qualquer momento existem 600 correspondentes estrangeiros em Israel. Ou seja, sem contar com os que chegam durante os períodos de guerra, em tempo de paz, esta pequena cidade terá provavelmente mais atenção mediática do que metade dos países de África juntos. A questão da importância é utilizada também por uma parte da imprensa pró-Israel para mostrar que por detrás de qualquer crítica a Israel poderá estar um primário anti-semitismo, e não uma questão de direitos humanos, como defende a esquerda.
Manifestação Pró-Palestiniana em Sidney, Australia

Ronald S. Lauder, presidente do World Jewish Congress escreve um artigo para o New York Times (republicado n'O Observador[1]) que, a determinada altura, pega nessa questão dizendo que "Na Europa e nos Estados Unidos, assistimos a manifestações contra as mortes trágicas de palestinianos, utilizados como escudos humanos pelo Hamas, a organização terrorista que controla Gaza. As Nações Unidas conduziram inquéritos e focam a sua raiva em Israel por se defender contra essa mesma organização terrorista. No entanto, o massacre bárbaro de milhares e milhares de cristãos é visto com relativa indiferença." João Marques de Almeida, também n'O Observador[2] questiona "Muitos interrogam-se, com alguma surpresa, por que razão há tantas manifestações contra Israel cada vez que o seu governo usa a força militar para se defender de ataques dos seus vizinhos. E a surpresa aumenta quando se fazem comparações. Alguém viu manifestantes na Embaixada da Síria quando o seu governo matou (e mata) milhares de cidadãos sírios? Não."

O argumento é interessante. Basicamente, quem critica o governo de Israel pelo seu comportamente é anti-semita, caso contrário não estaria a olhar para Israel, mas sim para o Irão, Síria ou Arábia Saudita. Interessante, mas sem mérito. É semelhante a ter um violador que está escandalizado com a sua prisão porque existem pedófilos no mundo. Quanto defendido pelos apoiantes de Israel, este não é um argumento legítimo que se use um crime de terceiros para limpar os seus próprios crimes. Mas eu não apoiei nenhuma das agressões de Israel, e preocupo-me com um possível crescimento do anti-semitismo (e da islamofobia), por isso o assunto interessa-me.

Por outro lado, esta ideia é tão generalizada que convém compreender mesmo qual o verdadeiro motivo (ou combinação de motivos) porque tanta gente se interessa por esta assunto. 

Religião
Jerusalém

Este deveria ser relativamente óbvio para quem já se passeou por Jerusalém ou conheça minimamente a história da região. Num espaço de um ou dois quilómetros quadrados temos alguns dos lugares sagrados dos Judaísmo, Cristianismo e Islão. Em alguns casos, os lugares santos praticamente atropelam-se, como no Muro das Lamentações e a Mesquita de Al Aqsa, sendo que a Igreja do Santo Sepúlcro fica a apenas uns minutos a pé. Para todos os crentes das três religiões monoteístas, existe um interesse natural em tudo o que rodeie esta cidade santa, assim como outras terras bíblicas que a rodeiam, como Bethlehem (Belém), Hebron ou o Rio Jordão. Não poderá no entanto esta ser a única explicação. Afinal de contas, uma grande parte da esquerda e direita seculares levam este conflito muito a sério sem qualquer interesse no seu lado religioso. 

Holocausto
Entrada para o campo de extermínio de Auschwitz, na Polónia

A vergonha do genocídio cometido nos anos 30 e 40 na Europa sobre os Judeus é, na minha opinião, outro das questões que torna este assunto tão próximo dos Europeus e Americanos. Na Europa, subsiste um sentimento de culpa muito real e vivo devido ao Holocausto, que fica patente quando vemos a proximidade da Alemanha a Israel[3], amizade que só é superada pelos Estados Unidos da América. Mas, obviamente, a Alemanha está longe de ter sido a única culpada da Shoah. França, Itália, Áustria, Holanda, Bélgica, Polónia, Ucrânia, Croácia e muitos outros foram ajudantes preciosos ou até voluntários nas perseguições e homicídios em massa. Para muitos governos, o risco de serem acusados de anti-semitismo é demasiado sério para poderem fazer a mais pequena crítica e a sobrevivência e progresso de Israel acabam por se tornar uma responsabilidade nacional.

Por outro lado, Israel utiliza a memória destes crimes como grande factor de união de todos os Judeus. Arrisco-me a dizer que nas últimas décadas, o Holocausto é a verdadeira raison d'être deste povo, da mesma forma que a Nakba se tornou o verdadeiro ponto fulcral da identidade Palestiniana. 

Propaganda


Há muito que Israel aprendeu as técnicas modernas de propaganda. Utiliza a sua influência junto do Congresso norte-americano através dos seus poderosos lóbis, como a AIPAC ou o World Jewish Congress[4]. A sua máquina dentro e fora do país está afinada para uma audiência global e utilizam todos os trunfos que têm com a qualidade de uma grande agência de marketing. Nesta última guerra, algumas das catch phrases utilizadas eram de grande nível e conseguiam passar imagens muitos simples e fortes tais como "nós usamos sistemas anti-mísseis para proteger os nossos civis, eles usam os seus civis para proteger os seus mísseis. É essa a diferença". Num ou noutro caso, o excesso de simplismo foi tal que destruíu a mensagem, como aconteceu quando quiseram convencer em Assembleia Geral das Nações Unidas que o Irão estava a um par de meses de conseguir a bomba atómica usando um desenho que parecia tirado dos cartoon do coiote. Mas em geral, Israel sabe bem passar a mensagem, fá-lo de forma massiva, cuidada e repetitiva, como deve ser uma propaganda eficaz.

Mas se só um lado soubesse passar a mensagem, não estaríamos todos permanentemente a discutir as origens, soluções e personagens do conflito. Durante muito tempo, os palestinianos não tiveram voz fora do mundo árabe. A ocupação acontecia sem demasiados envolvimentos do resto do mundo, não obstante a azia sentida por muitas capitais do Médio Oriente. Existiram 3 factores que modificaram tudo isto: Arafat, a crise de 73 e a primeira intifada. Separados no tempo, mas visivelmente cumulativos colocaram a questão Palestiniana nas primeiras páginas de todo o mundo. 

Yasser Arafat[5], histórico líder palestiniano, foi o primeiro homem a conseguir unir os árabes entre o rio Jordão e o mar. Com uma mistura de mitos, actos de coragem, muito desespero e um toque de ingenuidade, Arafat manteve a sua luta viva. Percorreu capitais, correu atrás da Internacional Socialistas, tentou derrubar governos e aliou-se a tudo e todos que lhe dessem uma palavra de apoio. Segundo Robert Fisk[6], talvez o mais destacado reporter de guerra do Médio Oriente, Arafat tinha ainda uma característica interessante: sempre que chegava algum diplomata internacional ou líder político, ele dava muito mais atenção aos media presentes do que à figura propriamente dita. Com todos os seus defeitos, ele soube desde cedo que as hipóteses do seu povo não estavam numa guerra mas na opinião pública. Em paralelo, não hesitou em utilizar directa ou indirectamente (através da PFLP[7], DFLP[8] entre outras) actos de terrorismo. As técnicas mudaram com os tempos, mas estiveram quase sempre presentes, passando por ataques bombistas, pirataria aérea, bombistas suicidas, etc. O terrorismo foi, enquanto instrumento de propaganda, utilizado extensivamente por Arafat e a sua Organização para a Libertação da Palestina (PLO). Depois do 11 de Setembro de 2001, todo o modelo teve que ser revisto de forma a não ficaram associados a Bin Laden e a sua Al Qaeda.

A crise de 1973 é interessante porque é a primeira vez que o mundo árabe se consegue unir pela causa palestiniana. Este artigo ameaça tornar-se longo, por isso prometo escrever um destes dias só sobre a ligação entre a derrota Árabe de 1967, a derrota (política senão militar) de Israel em 1973 e a primeira das grandes crises petrolíferas. De qualquer forma, é inegável que quando a OPEC (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) quadríplicou os preços do petróleo devido à ajuda militar de 2,2 mil milhões de dólares que os Estados Unidos se preparavam para dar (e deram), o problema da Palestina passou a ser um problema do mundo. Embora com o passar das décadas este factor (o de uma unidade árabe temporária) se tenha diluido, foi determinante nos anos 70 para - em conjunto com os ataques terroristas - colocar a história da Palestina nas bocas do mundo.

O terceiro momento - e que será provavelmente o mais decisivo em termos de propaganda - foi a primeira intifada. Este levantamento popular espontâneo apanhou de surpresa as lideranças palestinianas e israelitas. Uma espécie de precursor da Primavera Árabe, uma população não politizada farta da ocupação, dos jogos de bastidores, das promessas de ajuda árabe e da indiferença das grandes potências do mundo lançou-se à rua e desafiou os tanques munidos apenas de pedras. As imagens que o mundo viu mudaram a imagem que este tinha da Palestina, e de Israel. Imagem após imagem, Israel deixou de ser o David para ser o Golias. Um mundo horrorizou-se com o à vontade com que o então Primeiro-Ministro de Israel - Yitzhak Rabin - anuncia que o problema será resolvido com espancamentos generalizados. Desde então, o comportamento de Israel vem sendo escrutinado cada vez mais de perto o que o leva a um progressivo isolamento. É um situação recorrente que já aconteceu noutros lugares do mundo. Timor-Leste, antiga colónia portuguesa e com enormes ligações emocionais e históricas a Portugal, sofreu uma ocupação brutal da Indonésia durante décadas até ao dia em que o mundo viu as imagens do Massacre de Santa Cruz[9]. Demorou mais uma década até a ocupação indonésia acabar, mas desde que as imagens foram mostradas ao mundo que o seu destino estava traçado. Um a um, os líderes mundiais afastaram-se do governo de Suharto e deixaram de considerar a resistência timorense como terrorista. Mas Israel não é a Indonésia e a sua ocupação é muito diferente. Israel não veio para ocupar militarmente mas para criar um país. Para colonizar como se fosse território virgem. Para além de que não tem para onde recuar. Mas, à semelhança da Indonésia, viu a força das imagens de civis mortos pelo seu poderoso exército a retirarem-lhes legitimidade política. Desde a primeira intifada que Israel vem perdendo a sua aura aos olhos do público mundial. Embora espontâneo e imprevisivel, a intifada foi - de longe - o maior golpe de propaganda a favor da causa palestiniana.  

Existe um outro factor (mais lateral, mas bastante curioso) ligado à propaganda que é o ciclo vicioso da informação. Tal como referi anteriormente, um diplomata português na Palestina disse-me em 2011 que, em qualquer período de paz estão em Jerusalém pelo menos 600 correspondentes internacionais. Todos esses jornalistas precisam de justificar o seu salário, o que significa que subitamente, um ataque de pequena dimensão espontâneo, como aconteceu em 2008 com duas vítimas mortais[10] ou a petição do direito de residência de uma família[11] conseguem provocar directos nas maiores televisões de notícias do mundo. Muitos outros lugares do mundo são vítimas de enormes atrocidades, muitas vezes maiores, mas que não está lá ninguém para contar a história.

Refugiados

A questão da Palestina, ou de Israel se preferirem está também intimamente ligada com a questão dos refugiados de 1948, ou seja, a guerra da independência de Israel e 1967. Não pretendo aqui entrar em grande detalhe sobre o que causou os refugiados e os seus impactos, uma vez que já o fiz noutras ocasiões (nomeadamente no post Palestina e os Refugiados e The Ethnic Cleansing of Palestine).

Campo de Refugiados Palestinianos 1948
No que diz respeito à questão da importância do conflito para o resto do mundo, a falta de integração das populações refugiadas da Palestina é um dos seus grandes motivos. Nascidos no Líbano, mas sem passaporte libanês mesmo depois de duas ou três gerações. Nascidos na Síria, mas sem serem sírios. Por todo o Médio Oriente encontro pessoas que se dizem palestinianos, nascidos noutro país e que não têm passaporte. Apenas um documento de refugiados das Nações Unidas. Estas populações, tratadas como cidadãos de segunda em muitos outros países árabes revoltaram-se vezes sem conta tendo causado duas guerras civis (Jordânia e Líbano) e envolvidos em problemas de várias outras. Isto faz com que o problema se mantenha vivo ao longo de gerações.

Para os países que rodeiam Israel e Palestina, este é sem dúvida um factores cruciais para a importância do conflito.

Lóbis
Congresso EUA

Quer Israel, quer a Palestiniana estão totalmente dependentes das ajudas externas. Embora com um potencial turístico fabuloso (não só a religioso, mas também um clima perfeito), inseridos numa região cuja riqueza do petróleo lhes poderia permitir ter enormes investimentos externos e uma multiculturalidade singular, a verdade é que nenhum dos países se aguenta sozinho. Israel recebe ajudas directas americanas anuais de milhares de milhões de dólares, para além de várias ajudas indirectas ao nível militar, científico, académico e económico. A sua economia está excessivamente militarizada, com um programa nuclear de custos incertos, serviço militar obrigatório de longa duração para homens e mulheres, armamento de todo o tipo a ser desenvolvido e produzido internamente (como os tanques Merkava) e constantes guerras que, não obstante o apoio quase total da população judaica, têm um preço elevado em termos de gastos do estado (Netanyahu propôs recentemente cortes de 425 milhões de euros para pagar os 50 dias da operação em Gaza[12]).

Desta forma, Israel utiliza os seus lóbis nos EUA e no resto do ocidente[13] para manter o país na agenda política. Enquanto existir no poder americano uma visão clara de que Israel está debaixo de um perigo de vida - e simultaneamente que os apoios financeiros às campanhas dos congressistas e senadores estão dependentes do dinheiro desses lóbis - as ajudas vão continuar a pingar.

A Palestina não tem um lóbi muito forte, mas uma coligação de forças unem-se em seu auxílio e tem ganho força a cada ano que passa (muito devido à percepção de que o moral high ground de Israel se desvanece por cada civil que morre em Gaza nas suas regulares guerras). Sendo a generalidade dos governos e políticas de Israel associadas à direita, a esquerda mundial - em especial a europeia e sul-americana - juntam-se à causa. Isto inclúi vários países com economias enormes, como o Brasil, a França ou a Itália. Com mil milhões de muçulmanos no mundo, incluindo os maiores produtores de petróleo, a generalidade dos seguidores do Islão - sejam eles seculares, moderados, conservadores ou fundamentalistas - encontram-se sempre na linha da frente dos protestos, embora não tenha existido nunca um movimento de militância estrangeira em larga escala (como aconteceu com os mujahedin no Afeganistão ou com Islamic State na Síria e Iraque).

Anti-Semitismo e Islamofobia


Para muitos, este seria o único e verdadeiro motivo que tudo explicaria. Para quem apoia Israel, todos os seus adversários serão anti-semitas. Para quem apoia a Palestina, todos os seus adversários são islamófobos. 

Pelo que vejo nas caixas de comentários deste blogue e na sua página irmã do facebook, até poderia ser verdade. Talvez tudo se resumisse a estes tipos de discriminações racistas. Mas, sinceramente, duvido. Parece-me que mesmo muitos dos que fazem esses tipos de comentários, estão-se a deixar levar por generalizações perigosas e erradas, mas que estas são resultados dos factos de que falei antes e não a sua consequência. Claro que depois de transformadas em dogmas, estas ideias costumam ser tão fortes que ignoram factos e qualquer evento pode ser deturpado até significar precisamente o contrário do que de facto aconteceu. Mas quero acreditar que as esmagadora maioria das pessoas escolhe o seu lado convencida dos méritos do que lhe está a ser vendido.

E agora... a palavra aos meus leitores. Qual é a importância do conflito Israelo-Palestiniano?

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Stalingrad

Não é possível exagerar a importância da batalha de Estalinegrado, entre 1942 e 1943. É nesta cidade que o 6º Exército Alemão, liderado por Friedrich von Paulus, encontra o 62º Exército Soviético de Vasily Chuikov numa batalha que chega a ter mais de um milhão de homens de cada lado. As perdas para ambos foram terríveis mas, no final, o mundo suspirou de alívio quando percebeu que Hitler tinha sido decisivamente batido pela primeira vez, e que a segunda guerra mundial tinha acabado de virar a favor dos aliados. Nenhuma outra batalha da segunda guerra mundial, não obstante o seu brilhantismo técnico, números envolvidos, genialidade das tácticas militares ou qualquer outro factor foi tão decisiva como esta. É em Stalingrado - hoje Volgogrado - que a guerra foi decidida e que Stalin se torna num dos mais poderosos homens do século XX. 

É sempre um prazer ler Antony Beevor. Já aqui tinha revisto três livros deste autor (Segunda Guerra Mundial, A Queda de Berlim e Um Escritor na Guerra), todos relativos à guerra de 1939-1945 e aos quais praticamente só reservei elogios. Depois de ter detalhado tanto as qualidades deste autor e da sua obra, acho que só me resta dizer que "Stalingrad" é - de longe - o melhor de todos eles. Com o ritmo certo, enorme detalhe, mostra-nos a batalha de Estalinegrado nos vários níveis a que esta se move: entre a vontade férrea dos sanguinários Hitler e Stalin, dispostos a pagar com o sangue dos seus povos qualquer custo necessário para vencer esta batalha; na esfera do simbolismo, já que a cidade tinha o nome do ditador soviético o que leva ambos a sobrevalorizarem uma cidade já sem qualquer valor económico ou militar; das lembranças da gigantesca derrota napoleónica da Grand Armée de 1812 que perdera na invasão da Rússia quase meio milhão de soldados, obrigando o Imperador françês a regressar a Paris com apenas 27 mil soldados e a sua reputação decisivamente manchada; aos amedrontados civis apanhados no meio da mais horrorosa luta porta-a-porta; e aos pobres soldados de ambos os lados a lutar em condições miseráveis sem comida, água ou munições pelos esgotos e caves da cidade, de prédio em prédio até chegarem ao Rio Volga, no que ficou conhecida como a Rattenkrieg (por comparação à Blitzkrieg, guerra-relâmpago, os soldados alemães chamaram a este tipo de luta, "guerra dos ratos").


Estalinegrado - luta pela fábrica "Outubro Vermelho"
a apenas uma centenas de metros do rio Volga
Não deixa de ser curioso que Hitler, que tanto esforço tinha feito para consegui tomar países sem entrar em guerras urbanas tenha caído no erro de tentar tomar os escombros de Stalingrado, quando já não existiam verdadeiros motivos militares ou económicos para o fazer. Nesta altura (Outono de 1942), Hitler colecionava capitais europeias e nenhuma delas tinha sido destruída ao ponto que se viu em Stalingrado. As grandes cidades de França, Bélgica e Holanda estavam em relativo bom estado e só no leste algumas das cidades (nomeadamente na Polónia) tinham sinais sérios de bombardeamento. Em Leningrad, as tropas alemãs limitaram-se a cercar a cidade e deixá-la a morrer à fome sem se darem ao trabalho de tentarem tomá-la completamente. Mas para o lado ocidental do Volga, Hitler decidira que queria a cidade até ao seu último prédio. Toda a sua produção industrial tinha sido arruinada ou movida para leste meses antes e o tráfego fluvial que permitia a ligação do Volga até ao Mar Cáspio (e daí para a ajuda material americana através do Irão) também estava bloqueada já que o 6º Exército chegara até ao rio em vários pontos. A hubris de Hitler e a sua incapacidade em ouvir qualquer conselho dos seus generais, assim como um estado-maior das forças armadas sem qualquer capacidade ou vontade de fazer frente à intervenção directa de Hitler nos detalhes da guerra tornaram toda a situação impossível e muito pouco flexível. São lições que não foram aprendidas nessa altura e que se voltariam a revelar trágicas mais tarde durante a resposta à invasão aliada na Normandia.

Em paralelo, em Moscovo, Stalin permitiu ao seu general estrela, Georgy Zhukov a preparação de uma grande ofensiva de inverno sobre Von Paulus. Ao contrário do que era seu hábito, Stalin não tentou interferir exageradamente e aceitou a necessidade de algo diferente da habitual táctica de carne-para-canhão, com que os alemães tinham sido recebidos. Até aí, centenas de milhares de tropas soviéticas, mal preparadas, mal armadas, muitas vezes sem armas suficientes para toda a gente, eram atiradas contra as linhas da frente em missões quase suicidas contra os exércitos do Eixo. Torna-se então comum a existência de uma segunda linha soviética que disparava contra os que procurassem voltar atrás e uma política de terror fora implementada contra aqueles que desertassem (as suas famílias eram perseguidas e os seus colegas próximos ou superiories hierárquicos responsabilizados pela deserção).


Ju-87 Stuka depois de uma ataque a Estalinegrado
Depois das dificuldades do ano anterior, às portas de Moscovo, os alemães estavam à espera de uma ofensiva de inverno por parte dos russos. O que não contavam era com um movimento tão grande que cercasse a totalidade do seu exército de uma só vez. O azar calhou aos enormes, mas mal preparados exércitos Romenos que protegiam duas zonas cruciais da retaguarda, e do qual toda a logística dependia. Não obstante os oficiais romenos tenham avisado vezes sem conta das suas necessidades de armas anti-tanque, unidades blindadas e artilharia pesada, as suas forças foram na realidade ficando mais fracas à medida que mais recursos essenciais eram enviados para a Rattenkrieg.

Desta vez, Exército Vermelho prepararam-se como nunca tinham feito, juntando enormes números de soldados devidamente acompanhados da força aérea e dos modernos tanques T-34 (o seu design em curva tornava a sua blindagem muito superior a tanques do mesmo nível e as suas lagartas mais largas adaptava-se aos difíceis terrenos das estepes semi-congelada). Juntamente vinham também as unidades especializadas de atiradores furtivos, as super-estrelas do exército soviético e as tropas siberianas, com o seu equipamente camuflado branco e altamente treinadas para lutar no gelo e na neve.
Operação Uranus

No dia 19 de Novembro de 1942, inicia-se a operação Uranus, com um movimento a Norte e outro a Sudeste, com as forças a juntarem-se no rio Don (a leste do Volga), deixando os alemães e seus aliados sem capacidade de receber mantimentos, gasolina ou munições. Depois das irresponsáveis ordens para utilizar as tripulações de tanques em combates de infantaria urbanos, o exército alemão vê-se envolvido por um movimento em profundidade sem ter qualquer capacidade de resposta. Muita da sua artilharia pesada teve que ser abandonada já que as centenas de milhares de cavalos que os puxavam tinham sido levados mais para ocidente, para facilitar a logística da sua alimentação. Von Paulus mostra nessa altura a sua incapacidade. Não estava preparado para esta ofensiva. Não teve iniciativa para lhe responder adequadamente e limitou-se a fechar posições e esperar pelo futuro. A rápida actuação de Richthofen, da Luftwaffe, com os seus bombardeiros de precisão Stukas Ju-87 conseguiu dar alguma ajuda aos exércitos romenos mas foi pouco e demasiado tarde. O futuro do 6º Exército parecia estar selado.


Von Paulus (à direita) a ser interrogado pelo
Gen. Rokossovsky e Marshal Voronov
(primeiro e segundo a contar da esquerda) 
Mas o futuro nada traria de bom. O inverno apanhou os exércitos nazis sem nada e mal posicionados. Cada dia que passava estavam mais subnutridos, mais doentes e mais desidratados (mesmo com os nevões, a inexistência de combustível de tipo nenhum faziam com que não tivessem água suficiente). A ponte aérea prometida por Goering era uma fantasia que nunca poderia resultar: das 700 toneladas diárias pedidas por Von Paulus, Goering considerou que apenas 300 seriam realmente necessárias. Mas, na realidade, nem nos melhores dias conseguiram cumprir isso, mesmo quando desviaram bombardeiros para as missões de transporte. As ajudas terrestres nunca chegaram - o General Manstein não conseguiu quebrar o cerco vindo do sul, onde o seu Grupo de Exércitos do Don se encontrava, e acabou por utilizar o tempo que lhe restava para mover os seus exércitos para noroeste, conseguindo escapar ao inevitável cerco que lhe seria feito assim que o 6º Exército se rendesse. Von Paulus nunca tentou quebrar o cerco com as suas forças e cumpriu a ordem de defender a sua posição até ao fim. De todas as ordens directas que Hitler lhe deu, apenas não fez uma: não se suicidou. Mesmo depois da última promoção a Generalfeldmarschall, a apenas uns dias da destruição total do seu exército, uma indicação clara de que nunca poderia ser apanhado vivo. 

Stalingrado fica para a história como uma das maiores importantes batalhas da história e duvido seriamente que alguém, alguma vez, a contará melhor do que Antony Beevor. Depois de tamanho livro, não sei que mais esperar deste historiador inglês, mas será difícil voltar a estar ao mesmo nível. Talvez seja esta a única crítica a fazer a um livro perfeito: a esperança de voltar a encontrar outro do mesmo nível é mínima e nunca mais terei o prazer de ler este livro pela primeira vez. O que, obviamente, aconselho vivamente a todos os que me acompanham.




quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Porque o Hamas faria pior...

Nesta guerra de Gaza, voltamos a assistir aos habituais discursos e propaganda pró-Palestina e pró-Israel. Colocando de lado as típicas e trogloditas manipulações islamofóbicas e anti-semitas, encontramos um conjunto de argumentos de variada qualidade.

Um argumento utilizado pelos que defendem Israel (genericamente, a direita Europeia, a comunidade judaica mundial e grande parte dos Estados Unidos) é o de que a o ataque israelita é justo porque o Hamas faria pior se pudesse. Vou-me centrar hoje neste argumento específico.

A ideia é interessante, e parece ter algum impacto junto dos leitores. Ajuda a construir a ideia do "bem vs mal" colocando Israel do "nosso" lado e como alguém que pratica o mal apenas como último recurso, onde as vítimas civis são colaterais e que é obrigado a utilizar fogo para combater fogo.
Medina de Fez, Marrocos, onde uma vibrante comunidade
judaica residiu durante séculos

Miguel Esteves Cardoso, no Público[1], afirmava que "Mas se fosse ao contrário acham que o Hamas não usaria os foguetes mais assassinos para atacar Israel? Acham que o Hamas alguma vez os usaria só para contra-atacar, depois de um ataque israelita?". No Observador[2], Rui Ramos avisa que "A grande questão é saber quanto tempo pode um Estado democrático e de direito, como Israel, sobreviver a uma guerra sem fim. Por enquanto, tem os meios materiais necessários. Mas até quando? É que se um dia lhe faltarem, não teremos muito tempo para lastimar Israel." No Brasil, o vereador Valter Nagelstein[3], num discurso emotivo segue a mesma ideia "as cidades [de Israel] só não foram destruídas [pelos rockets do Hamas] porque Israel é uma nação desenvolvida". Ou seja... se Israel um dia não tiver um poder absolutamente demolidor sobre o seu vizinho, só podemos esperar um genocídio. Um novo Holocausto. 

Curiosamente, não é isso que a história nos diz. Nem o passado recente. Nem o presente. Durante mil e quatrocentos anos, enquanto a Europa ia vivendo sucessivas ondas de anti-semitismo, os países árabes e muçulmanos protegeram sempre esta minoria. Até 1948, milhões de judeus viviam perfeitamente integrados desde Marrocos[4] até ao Irão e Turquia. Desde o início, quando os reinos cristãos na península Ibérica foram formados, os judeus fugiram junto com os muçulmanos, sabendo o que os esperava. Em muitos casos, lutaram ao lado dos muçulmanos para defenderem as suas terras. Durante as cruzadas, os fundamentalistas cristãos atacaram e destruíram comunidades judaicas no sudeste europeu[5] e foram combatidos pelos judeus de Haifa (actual Israel) que conseguiram aguentar durante um mês o cerco de 1099. No mesmo ano, Jerusalém cai com os defensores muçulmanos e judeus a serem chacinados por igual[6]. Foi entre os muçulmanos e não entre os cristãos que durante muitos séculos os judeus se sentiram seguros.
1099 Conquista de Jerusalém pelos cruzados liderados por Geoffrey de Boullion. Judeus e muçulmanos foram massacrados de forma semelhante. Durante 90 anos (até à reconquista de Saladino em 1189),
não era permitida a entrada ou residência a judeus na cidade.

O fundamentalismo do Hamas não é a causa da violência de Israel. É, pelo contrário, o seu resultado.
Jovem palestiniano enfrenta um tanque israelita
com uma pedra durante a Primeira Intifada

O Hamas foi fundado apenas em 1987, isto é, quase 40 anos depois da criação do estado de Israel, durante a primeira intifada, o primeiro grande levantamento palestiniano onde milhares de jovens se lançaram contra as tropas de ocupação israelitas munidas apenas de pedras. Foi o falhanço de todas as outras formas de lidar com o ocupante que provocou o aparecimento de uma nova via, a do fundamentalismo islâmico. Até então, os palestinianos aceitaram a ocupação relativamente bem sem criar demasiada desordem, se tivermos em conta as limitações que já então tinham. Quando perceberam que nunca seriam cidadãos de um estado comum, que não teriam direito de voto, que não seriam incorporados na Jordânia ou no Egipto e que pouca ou nenhuma esperança tinham para o futuro, os palestinianos sairam à rua. A resposta israelita foi o que ficou conhecido por "might, power and beatings" ("força, poder e espancamentos"), um termo cunhado pelo então ministro da Defesa israelita, Yitzhak Rabin[7], que mais tarde receberia o Prémio Nobel da Paz juntamente com Yasser Arafat e que viria a ser assassinado em 1995 por um elemento da extrema direita, opositor do processo de paz). É essa política inicial de violência total sobre os manifestantes que cria e alimenta o Hamas nos seus primeiros anos tornando-o rapidamente num pretendente ao trono dos destinos da Palestina. De nada valeram as palavras horrorizadas dos judeus americanos, como noticiou o New York Times em Janeiro de 1988[8]. Esse grupo de académicos de Princeton, Harvard, entre outros escrevia então "Lemos com vergonha relatórios de espancamentos porta-a-porta de centenas de pessoas, partindo ossos e levando à hospitalização de idosos e crianças". Acrescentam depois, com acertada premonição, que esses actos "reforçam a mão aos árabes extremistas que, à semelhança dos judeus extremistas, rejeitam negociações e sonham com uma 'guerra santa'". Israel iniciara uma nova fase da sua ocupação. O Hamas iniciara uma nova fase na resistência palestiniana. 

Sobre os acontecimentos de Gaza dos últimos anos (e já vamos na terceira guerra em apenas 6 anos), já aqui falei diversas vezes. Em cada uma delas, os factos mostram-nos que Israel faz - de facto - pior. Mata mais. Indiscriminadamente. E isso são factos, não intenções nem invenções da casa de quem comenta de Lisboa ou Rio de Janeiro. O Hamas ganha força a cada guerra que perde. Israel acumula vitórias pírricas. Cada invasão israelita comprova o que tantos palestinianos acreditam: que Israel nunca lhes permitirá viver em paz e segurança. E que os sonhos de uma grande Israel (Heretz Israel, numa área muitas vezes superior ao actual território de Israel somado ao da Palestina) estão ainda vivos.
2014 Gaza. Dispensa comentários.

Garantem-nos que o que Israel faz é pouco e que "o Hamas faria pior". A verdade é que não sabemos. O que os factos nos mostram é que, consistentemente, Israel fez pior. Que na história não foram os muçulmanos que perseguiram os judeus, aliás, precisamente o contrário: protegeram-nos. Que o Hamas e a sua ideologia fanática é o resultado directo das acções violentas de Israel e não a sua causa e, finalmente, que cada nova guerra torna o Hamas mais forte e os seus rivais moderados da Fatah mais fracos.

Tudo o que acabou de ler é do conhecimento comum de qualquer israelita. Mais de 90% dos judeus israelitas apoiam a guerra[9]. Agora pergunto: Quererá mesmo Israel a paz?